Fiz daquela tarde um quadro
Um retrato de quem nós dois
Poderíamos ter sido
Mudei de lugar as coisas do quarto
Tentei as pazes com o passado
E até com o verossímil
Por um instante despertei o mágico
Mas este hoje está quebrado
Calado e quase invisível
Eu amo o bolero dos nossos corpos nus
Molhados de calor de quando falta luz
E calas os meus verbos, língua tagarela
Molhada do calor que há entre tuas pernas
Como gatos que cruzam à noite
Inebriados do negro céu
Iluminados pela nudez da lua
Coito que encontra um coite
O seu abraço no meu
A minha coisa na tua
E o branco sol nasceu como pôde
Implacável, trazendo o hoje
junto a inefável saudade sua.
