sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Fiz daquela tarde um quadro

Um retrato de quem nós dois

Poderíamos ter sido

Mudei de lugar as coisas do quarto

Tentei as pazes com o passado

E até com o verossímil

Por um instante despertei o mágico

Mas este hoje está quebrado

Calado e quase invisível


Eu amo o bolero dos nossos corpos nus

Molhados de calor de quando falta luz

E calas os meus verbos, língua tagarela

Molhada do calor que há entre tuas pernas


Como gatos que cruzam à noite

Inebriados do negro céu

Iluminados pela nudez da lua

Coito que encontra um coite

O seu abraço no meu

A minha coisa na tua

E o branco sol nasceu como pôde

Implacável, trazendo o hoje

junto a inefável saudade sua.

domingo, 7 de abril de 2024

Se recapitulo este lugar

De reencontro, de autoconsciência

É também porque pesa nos ombros o abandono.

Cada um de vocês

no dar as costas, no deixar portas entreabertas

fazem-me sentir uma rocha que submerge

neste abissal vazio neste negro oceano

neste quarto onde a ilusão da liberdade vagueia

Uma segurança plástica com medo orgânico do futuro.

Não há abrigo nesta selva

frondosa na memória

instransponível de indiferença

profusa mata de incertezas.