terça-feira, 5 de agosto de 2025

Andar pelo chão da casa

Atento a cada detalhe

Fisgado pelo fascínio

Das cores e texturas

E do cheiro dos livros


Abrir velhos álbuns

De museus da Europa

Ouvir LPs do tio

Revistas de mulher nua

Reler os mesmos quadrinhos


Acordar antes do sol

Tomar um café quente

Tomar um banho frio

Chegar cedo na escola

Achar o pátio vazio


Não ver passar o tempo

Não torcer pra acabar o dia

Não perder a volta do sol

Fechado numa pequena tela


Não ter medo do tempo

E passar ódio com as notícias

Assistir a jornada de um caracol

E a chuva a cair na janela


Gostar da menina mais bela


Procurar ovos de Páscoa

Primeiro dia de férias

Abrir presente de Natal

Brasil levantar o Tetra

Assistir o Charlie Brown


Ensaiar a quadrilha

Tentar com aquela menina

Feriado de carnaval

Primeiro coração partido

Foi na festa junina


Ter vários superpoderes 

Ir onde o vento levar

Ter um esconderijo

o meu cachorro vivo

E meu pai, minha mãe e meu tio


Não ter medo de morrer

Não ter vontade de morrer

Não ter taquicardia

Dormir sem ser um problema


Não ter medo de falhar

Nem lembrança de falhar

Muitos desejos e sonhos

E dúvidas, apenas


Todo dia escrever um poema.


Ser trancado embaixo da escada

Preso e sufocado

Ser despido no meio da aula

Ser ridículo, fino e fraco

Areia na boca, sangue na cara


Ser o pior aluno da sala

Ser incapaz de dançar

Ganhar mais uma medalha

Premiado sem fazer nada

Apenas por participar


Ser jogado sempre pra trás

Desmaio virava espetáculo

Bom de bola jamais

Estar sempre só no recreio

Por ser estranho demais


Não sentir o mundo acabar

Não sentir comida acabar

Não saber de Gaza

Desconhecer os horrores de Gaza