Andar pelo chão da casa
Atento a cada detalhe
Fisgado pelo fascínio
Das cores e texturas
E do cheiro dos livros
Abrir velhos álbuns
De museus da Europa
Ouvir LPs do tio
Revistas de mulher nua
Reler os mesmos quadrinhos
Acordar antes do sol
Tomar um café quente
Tomar um banho frio
Chegar cedo na escola
Achar o pátio vazio
Não ver passar o tempo
Não torcer pra acabar o dia
Não perder a volta do sol
Fechado numa pequena tela
Não ter medo do tempo
E passar ódio com as notícias
Assistir a jornada de um caracol
E a chuva a cair na janela
Gostar da menina mais bela
Procurar ovos de Páscoa
Primeiro dia de férias
Abrir presente de Natal
Brasil levantar o Tetra
Assistir o Charlie Brown
Ensaiar a quadrilha
Tentar com aquela menina
Feriado de carnaval
Primeiro coração partido
Foi na festa junina
Ter vários superpoderes
Ir onde o vento levar
Ter um esconderijo
o meu cachorro vivo
E meu pai, minha mãe e meu tio
Não ter medo de morrer
Não ter vontade de morrer
Não ter taquicardia
Dormir sem ser um problema
Não ter medo de falhar
Nem lembrança de falhar
Muitos desejos e sonhos
E dúvidas, apenas
Todo dia escrever um poema.
Ser trancado embaixo da escada
Preso e sufocado
Ser despido no meio da aula
Ser ridículo, fino e fraco
Areia na boca, sangue na cara
Ser o pior aluno da sala
Ser incapaz de dançar
Ganhar mais uma medalha
Premiado sem fazer nada
Apenas por participar
Ser jogado sempre pra trás
Desmaio virava espetáculo
Bom de bola jamais
Estar sempre só no recreio
Por ser estranho demais
Não sentir o mundo acabar
Não sentir comida acabar
Não saber de Gaza
Desconhecer os horrores de Gaza